A PUC Minas sedia, de 14 a 17 de setembro, o Congresso Brasileiro de Educação em Engenharia (Cobenge), o mais importante fórum de discussão sobre a formação e o exercício profissional em engenharia no Brasil. Em sua 54ª edição, o tema em debate é O futuro da Engenharia: formação integral para profissionais adaptáveis e inovadores. Conjuntamente, a Universidade também recebe o 9º Simpósio Internacional de Educação em Engenharia, ambos promovidos pela Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge). A solenidade de abertura foi realizada na noite desta segunda-feira, 14 de setembro, no Teatro São João Paulo II, Campus Coração Eucarístico.
Em seu discurso de boas-vindas, o Reitor da PUC Minas, Prof. Dr. Pe. Luís Henrique Eloy e Silva, listou três motivos pelos quais a Universidade recebe com prazer o congresso. O primeiro deles, é que acolher um evento acadêmico desse porte é parte inerente de uma instituição universitária como a PUC Minas. De acordo com ele, a palavra congresso significa, sobretudo, congregar ideias, projetos e encaminhamentos, mas congregar também relações interpessoais e institucionais. Em segundo lugar, receber o Cobenge é dar luz à importância das Engenharias como área construtora de espaços e de soluções, em que solidificam-se projetos pensados com técnica e com inteligência. Ele pontuou que essa também é a trajetória do Instituto Politécnico da PUC Minas (IPUC), um lugar que acredita que os espaços constroem relações, sonhos e soluções. Por fim, observou que a Engenharia – seja ela Civil, Elétrica, Mecânica, de Produção, de Software ou qualquer outra – sempre vai incidir na vida do ser humano, seja no âmbito pessoal ou no âmbito social.
Ao recordar a Magnifica Humanitas – primeira encíclica do Papa Leão XVI, que aborda a salvaguarda da pessoa humana na era da inteligência artificial – ele auspiciou que o congresso construa o que ele definiu como Engenharia de Pentecostes: capaz de estar aqui presente de corpo e alma no momento em que cada coisa acontece. Aberta ao outro, aberta ao conhecimento que o outro partilha e reconhecendo também a sua disponibilidade de crescer com aquilo que o outro traz ao partilhar, afinal, a Engenharia nunca é individualizada, ela sempre se refere ao coletivo.
Primeira mulher a presidir a Associação Brasileira de Educação em Engenharia (Abenge), a Profa. Dra. Adriana Maria Tonini destacou que a área ainda é desigual em relação ao gênero: apenas 28% da representação nas engenharias é feminina. Ela destacou a urgência de políticas públicas e ações efetivas que incentivem meninas e jovens a ingressarem nessas áreas, movimento que, segundo ela, ampliará a produção científica e fortalecerá o desenvolvimento tecnológico do país. "Que nossas mãos sejam sempre unidas pela generosidade do fazer. Que nossos pés caminhem na direção da igualdade de oportunidades. Que nossos corações acolham as diferenças. E que nossos cérebros utilizem todo o conhecimento para dignificar o ser humano, razão maior da existência de todos nós", recomendou.
Política de desenvolvimento focada na indústria
Representando o ministro da Educação, Leonardo Barchini, o secretário de Educação Superior do MEC, Marcus Vinicius David, citou o Japão, a China e os Tigres Asiáticos – Coreia do Sul, Hong Kong, Singapura e Taiwan – como exemplos de nações que obtiveram êxito no desenvolvimento econômico por meio do investimento massivo na indústria. Ele afirmou que o MEC tem investido em uma política de expansão das instituições federais em áreas consideradas estratégicas para o desenvolvimento do país. Nesse sentido, a Engenharia tem recebido um grande esforço de investimento.
"A política da nova indústria nacional conseguiu melhorar os nossos indicadores de participação da indústria brasileira hoje no mundo, mas ainda de uma forma muito tímida. Nós precisamos de um esforço efetivo de planejamento de uma política que efetivamente valorize a indústria nacional e, dessa forma, nós possamos criar uma atmosfera que faça com que os nossos jovens percebam que cursar essas carreiras de engenharia efetivamente representará oportunidades reais de êxito profissional", defendeu, ao observar que grande parte dos jovens de formação quantitativa – com formação em Engenharias, Física, Matemática e Economia – estão seguindo para o mercado financeiro em detrimento da área industrial. "O que nós estamos fazendo hoje no governo é uma discussão para que a formação, o papel da educação, seja associado a essa política de desenvolvimento", completou.
Agenda latino-americana
Para o presidente da Associação Equatoriana de Instituições de Ensino e Engenharia (Asecei), Prof. Dr. Marcelo Cevallos, o tema da mesa solene constitui um chamado que vai além da função pragmática das instituições de ensino de formar profissionais capacitados e inovadores; ele é um chamado à revisão das políticas, dos modelos de gestão e das práticas de ensino. Segundo Cevallos, que pontuou em seu discurso o cenário marcado pelas crises cíclicas nos âmbitos econômico, social e ambiental, as universidades precisam se questionar se seus egressos serão capazes de enfrentar os desafios contemporâneos e os do futuro. "Durante muito tempo, formamos engenheiros para resolver problemas relativamente previsíveis. Hoje, devemos formar profissionais capazes de atuar em contextos incertos, interpretar informações diversas e tomar decisões responsáveis em cenários em que ainda não existem respostas definitivas. Engenheiros tecnicamente excelentes, socialmente comprometidos, eticamente responsáveis e preparados para aprender ao longo da vida", disse.
Os países da América Latina, por sua vez, por compartilharem grandes desafios devido à desigualdade, à insegurança, à degradação ambiental, à dependência tecnológica e às limitações no acesso aos serviços essenciais, oferecem também oportunidades. A essa constatação, Cevallos propôs à presidente da Abenge a criação de uma agenda de cooperação regional caracterizada pelo reconhecimento das diferenças entre os países ao mesmo tempo em que aproveita as capacidades que são complementares. "Este congresso, que sem dúvida alguma é um marco histórico, nos compromete, enquanto atores-chave das instituições de ensino superior, a superarmos as barreiras burocráticas que possamos ter e a construirmos uma agenda latino-americana na formação em engenharia", afirmou.
Internacionalização
O presidente do Consórcio Latino-Americano e do Caribe de Instituições de Engenharia (Laccei), Prof. Dr. Luis Fernando Martínez Arconada, ressaltou a importância de professores criativos, que rompam com os moldes tradicionais, para formar profissionais com competências interculturais, capazes de liderar equipes diversas, que compreendam que as soluções técnicas só são eficazes se forem socialmente responsáveis em qualquer lugar do mundo. Para isso, a internacionalização da área está além do gerenciamento de programas de intercâmbio, sendo fortemente ancorada na concepção de currículos com perspectiva global. "Precisamos de professores que transformem a sala de aula em um laboratório vivo e que ensinem aos alunos a encarar o fracasso como parte do processo de inovação. A faísca de adaptabilidade é sempre acesa por um professor inspirado. Não podemos formar os profissionais do futuro com métodos do passado", defendeu.
Arconada também abordou em sua fala a era da Inteligência Artificial (IA), na qual algoritmos processam dados em velocidades sobre-humanas. No entanto, ele argumentou, essas ferramentas carecem de empatia, ética, intuição e propósito social. "Criatividade, compaixão e a capacidade de compreender as reais necessidades de uma comunidade são atributos estritamente humanos. O engenheiro do futuro não compete com a IA, ele a lidera com discernimento para garantir que a tecnologia sirva à dignidade das pessoas", disse.
Legitimação da ciência
Representando os demais reitores das Instituições de Ensino Superior (IES) envolvidas no Cobenge, o reitor da Universidade Federal de Ouro Preto (Ufop), Prof. Dr. Luciano Campos da Silva, discursou sobre o papel fundamental da engenharia no desenvolvimento do Brasil, bem como o das universidades na legitimação do conhecimento para a sociedade. De acordo com ele, é por meio delas que se conquista um projeto de país mais industrializado e soberano. "Cada aluno e cada aluna tem que sair da graduação com uma formação técnica muito sólida e, também, uma formação humana de qualidade", acrescentou.
O momento atual, classificado por Campos da Silva como desafiador, no qual as universidades públicas têm sido alvo de críticas, foi tratado pelo dirigente da Ufop, cuja Escola de Minas completa, em outubro deste ano, 150 anos. Segundo ele, as IES privadas e filantrópicas também passam por situação semelhante, uma vez que as disputas de narrativas afetam a todos, guardadas as devidas proporções. "Esse é um momento muito difícil porque estão tentando convencer os nossos jovens de que eles não precisam trilhar carreiras de longo prazo, então temos que apresentar para eles um projeto de país em que eles terão empregos depois de se formarem", pontuou.
As atividades do 54º Cobenge prosseguem até quinta-feira, 17 de setembro. Confira a programação no site.