Desinformação contratada: possibilidades de pesquisa e colaboração no contexto do Sul Global
PPGCOM conversa com o professor Jonathan Corpus Ong, da University of Massachusetts (UMass), durante sua estada na PUC Minas
Em um mundo marcado pela polarização política e por transformações digitais, é cada vez mais urgente compreender as dinâmicas de trabalho que movimentam o mercado da desinformação, sobretudo em países socialmente vulneráveis como os do Sul Global[1] [2] [3] . É neste contexto que se destacam as pesquisas do etnógrafo filipino Jonathan Corpus Ong, que esteve como professor convidado no Programa de Pós-graduação em Comunicação Social (PPGCOM) da PUC Minas, durante o mês de abril. Após visitar o país em 2023, o professor retornou ao Brasil com o objetivo de fortalecer as oportunidades para colaborações internacionais e o intercâmbio de conhecimento entre pesquisadores no contexto do Sul Global.
Para discutir os bastidores da produção e da circulação de desinformação, o PPGCOM Entrevista conversou com Jonathan Ong, durante sua passagem pela PUC Minas, sobre as motivações e as estruturas políticas, econômicas e sociais que envolvem esse complexo fenômeno.
Clique aqui e ouça os destaques da entrevista na Pílula do PPGCOM Entrevista, em formato de áudio.
Para começar, gostaríamos que você nos contasse um pouco sobre seus projetos e interesses de pesquisa e qual é a sua relação com pesquisadores brasileiros?
Jonathan: Eu tenho participado do projeto de construção de uma rede de conhecimento South to South [entre países do Sul Global], desde 2022, após as eleições no Brasil e nas Filipinas. Ambos os países tiveram eleições no mesmo ano, mas resultados diferentes. O Brasil elegeu Lula. Já as Filipinas elegeram o filho do ditador para a presidência. Então, nós queríamos entender o que o Brasil fez de certo e o que poderíamos aprender com isso. E esse tem sido um projeto de longa data desde então, que deu origem a muitas parcerias e muitos outros novos projetos. Em 2023, visitei a PUC-Rio [Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro] com pessoas da Índia, África do Sul e Moldávia, antes do grande ano das eleições de 2024. E agora estou de volta ao Brasil em 2025. Passei um mês no Rio de Janeiro, no Instituto de Tecnologia e Sociedade, e depois um mês aqui na PUC Minas, para trabalhar com o Conrado Mendes (PPGCOM-PUC Minas), e também com o Thales Lelo (DCS-UFMG) na UFMG. Então, meus projetos são tanto de pesquisa quanto de construção de espaço. A pesquisa consiste em continuar as comparações, ainda tentando entender o que o Brasil vivenciou em termos de justiça tecnológica e de iniciativas contra a desinformação. Até onde isso avançou, desde 2022, com o governo Lula? Quais são os novos problemas que pesquisadores e organizações da sociedade civil enfrentam aqui? Muitos grupos da sociedade civil no Brasil e em outros países do Sul Global estão se esforçando, certo? Então, outro aspecto é uma questão de espaço. Ainda estou construindo redes. É por isso que estou aqui na PUC Minas. Quais são as oportunidades para parcerias e intercâmbio de pesquisadores? Por exemplo, no próximo outono, Thales Lelo me visitará nos Estados Unidos para que possamos realizar nosso projeto juntos, buscando entender como a sociedade civil está vivenciando a contração da ajuda e quais são os novos projetos em andamento. Gostaria que essa parceria continuasse. O grande projeto é a construção de uma rede Sul-Sul.
O que é desinformação contratada e como essa prática afeta o Sul Global?
Jonathan: Desinformação contratada é um termo que descreve os atores motivados financeiramente, que produzem propaganda, elaboram campanhas e espalham mentiras online. Na verdade, quando nos referimos à desinformação, não se trata apenas de indivíduos extremistas ou de pessoas que foram radicalizadas. Essa [a desinformação contratada] é também uma descrição para pessoas que fazem isso como trabalho. E que, portanto, mobiliza um conjunto diferente de respostas que precisamos apoiar, em vez de focar apenas em notícias falsas como conteúdo a ser apagado.
Quais dinâmicas econômicas e políticas se destacaram ao longo de sua pesquisa sobre o ecossistema de desinformação nas Filipinas? Você identifica semelhanças ou convergências com o cenário brasileiro, no que diz respeito às formas de produção e circulação de desinformação?
Jonathan: Vou falar sobre a pesquisa Custom Build ["Feito Sob Medida"], lançada em novembro de 2023, no site da Glowtech. Uma das principais observações que encontramos foi que as coalizões brasileiras estavam abertas à diversidade metodológica de uma forma que as coalizões filipinas não estavam, infelizmente. Isso se relaciona com a experiência da sociedade civil brasileira, que se organizou e liderou muitas iniciativas de justiça climática anteriormente e, portanto, estava aberta à diversidade metodológica e à colaboração com um grande número de organizações. Em contraste, as iniciativas contra a desinformação nas Filipinas eram muito mais uniformes metodologicamente, e as pessoas estavam tentando conformar a verificação de fatos como a única solução para a desinformação. Isso era um problema, mas também me fez perceber como a dinâmica do poder de financiamento realmente importa. A sociedade civil filipina era muito dependente do financiamento estrangeiro da Google News Initiative, nos Estados Unidos, e era da verificação de fatos que vinha o financiamento deles. Embora muitas organizações da sociedade civil fossem muito criativas e tivessem diferentes pontos fortes na organização comunitária, é difícil conseguir financiamento para isso. Nesse sentido, identificamos como um problema, em comparação com a experiência brasileira.
"Ainda estou construindo redes. É por isso que estou aqui na PUC Minas. O grande projeto é a construção de uma rede de conhecimento entre países do Sul Global".
Em relação à sua metodologia de trabalho, como você tem utilizado a etnografia para entender os bastidores da desinformação?
Jonathan: Eu sou um etnógrafo e a etnografia representa para mim uma metodologia de pesquisa cuja primeira virtude é a empatia, e cuja motivação é humanizar as pessoas. Eu ainda preciso tentar entender de onde as pessoas vêm e como elas chegaram lá. Tentar entendê-las como as responsáveis por produzir memes, compartilhar mentiras, organizar entre si hashtags para virar tendência no Twitter. Minha motivação é mostrar que elas são seres humanos. São pessoas diversas, complicadas e que existem no contexto de uma hierarquia e estrutura política mais ampla. Frequentemente pensamos sobre desinformação ou notícias falsas no contexto de trolls, influenciadores e pessoas de "baixo escalão", mas não vemos realmente as elites políticas organizando tudo, e é isso que minha pesquisa tenta fazer.
Na sua avaliação, existem medidas que são indicadas ou executadas para o combate à desinformação, sobretudo no contexto do Sul Global?
Jonathan: Sim, um dos principais argumentos que apresentamos em "Feito Sob Medida" é a importância da responsabilização das empresas de tecnologia. Eu acho que todos concordamos que as big techs criam uma infraestrutura que não é aberta à transparência e accountability [prestação de contas]. E precisamos responsabilizá-los. Mas isso é apenas uma, entre muitas coisas, que precisamos investir. E da perspectiva da sociedade civil, eu acho que algumas iniciativas que focam apenas no conteúdo das redes sociais e em como policiar esse conteúdo podem ser facilmente instrumentalizadas por pessoas mal-intencionadas dentro de governos e setores de segurança, como a polícia ou as forças armadas, para silenciar dissidências e ativismo. Portanto, uma visão mais alinhada à sociedade civil e ao Sul Global sobre a responsabilização das empresas de tecnologia, foca em abordagens mais direcionadas como trabalho de base com comunidades, iniciativas focadas em educação midiática e digital, mais ações sociológicas para reduzir polarização, ajudando assim a reconstruir famílias e comunidades divididas por diferenças políticas.
A desinformação sob encomenda é um mercado que encontrou terreno fértil de exploração no Sul Global. Qual é o perfil e condições de trabalho dos trabalhadores envolvidos na produção em massa de desinformação? Como e por que esses trabalhadores são cooptados para esse mercado?
Jonathan: Minha pesquisa Architects of Network Disinformation mostra claramente que há vários motivos pelos quais as pessoas se envolvem nisso, e a precariedade econômica é um fator crucial, especialmente no Sul Global. A indústria digital vem sendo vista nesses países como um setor promissor, de crescimento e inovação, então há um grande interesse em se tornar trabalhador digital. Mas as condições para proteger esses trabalhadores, como movimentos por justiça no trabalho e sindicatos, são frágeis em muitos países do Sul Global. Além disso, discussões sobre ética, regulação ou autorregulação das empresas não são tão comuns, e muitos trabalhadores, desesperados por renda, acabam acumulando vários empregos, especialmente durante as eleições, quando surgem indústrias inteiras contratando. É aberta uma temporada de "bicos" eleitorais. Assim, práticas enganosas de recrutamento, especialmente de jovens em situação de vulnerabilidade social, são normalizadas e muitos trabalhadores são contratados para serem "trolls", mas a descrição da sua função não é ser um "troll". Muitos são contratados como "gerentes de mídia social", "especialistas em Relações Públicas" ou "gestores de comunidade online". No entanto, no primeiro dia, descobrem que seu trabalho real é criar contas falsas para promover um político. Portanto, alguns deles nem escolheram isso voluntariamente. Mas algumas pessoas, especialmente aquelas no topo da cadeia alimentar, pessoas que têm experiência organizando campanhas, veem isso como normal. [Eles dizem] "Sempre foi assim", "Já vencemos eleições antes", "As redes sociais são só um novo território para nós". E é assustador ouvir isso também.
"Minha motivação é mostrar que a desinformação contratada também envolve pessoas diversas, complicadas e que existem no contexto de uma hierarquia e estrutura política mais ampla".
Para você, quais são as principais possibilidades e benefícios da colaboração internacional, em estudos sobre desinformação contratada, entre pesquisadores de contextos latino-americanos e do sudeste asiático, por exemplo
Jonathan: Ótima pergunta. Tem muitos exemplos diferentes. Eu me interesso mais, obviamente, pela sociedade civil, no sentido de comparar estratégias, atividades e pessoas nesse espaço em várias regiões. Juntar eles e conversar mesmo, sabe? Tipo, o fact-checker das Filipinas e o fact-checker do Brasil. Eu quero que eles conversem e entendam: "Vocês são pagos da mesma forma?". Até mesmo antes de entrar na questão das fake news, coisas básicas como: "Suas organizações apoiam vocês?", "Vocês têm algum suporte de saúde mental como trabalhadores?". Um tema central da minha pesquisa é a justiça do trabalho. Seja no lado da desinformação ou no lado do combate a ela. Então, [busco] entender as melhores formas de atuação na sociedade civil, mas também na academia. Por exemplo, pessoas que estudam o bolsonarismo: "Vocês veem as mesmas coisas ao estudar o dutertismo [movimento de apoio ao ex-presidente filipino Rodrigo Roa Duterte] nas Filipinas?". Tenho feito isso com o Thales Lelo. Estamos comparando o contraste entre as diferentes formas que nossos países veem os EUA, como aliado ou talvez como adversário nesse contexto. Histórias muito diferentes e a pesquisa comparativa é muito importante. E, em termos de exemplos de estudos, tenho conversado com estudantes como o Mateus [Pegoraro, egresso do PPGCOM], que também se interessa muito por espiritualidade. Convido ele e outras pessoas a refletirem sobre teorias em espaços de espiritualidade e bem-estar. Acho um ótimo tema. E aqui no Brasil, ouvi falar do kardecismo, da Umbanda, sobre como há muitas crenças espirituais. Vejo similaridades nas Filipinas, um país católico, mas também com muito sincretismo religioso, misturas e várias interpretações de como o mundo funciona. Há tanto a aprender com diferentes países. Além disso, há temas muito específicos, que acho muito ricos, como culturas de golpe, jogos online, trabalho sexual, a economia informal, sabe? Todos são ótimos tópicos para estudar no Sul Global porque somos mais abertos para falar sobre isso e para aderir a novas tendências. No Norte Global, as pessoas são mais cautelosas com inovações e demora para pegar. Mas no Brasil e nas Filipinas estamos sempre seguindo novas tendências, sempre animados e dispostos a aderir. E acho que isso torna nossos países muito interessantes para estudar nesse aspecto.
Obrigado pela entrevista e por compartilhar suas valiosas pesquisas conosco. Por fim, gostaríamos de saber como foi a sua experiência como professor visitante na PUC Minas.
Jonathan: Eu acho que vivenciei a hospitalidade no "estilo mineiro". As pessoas de Minas são extremamente calorosas, abertas, amigáveis, interessantes e muito curiosas. Eu simplesmente me sinto muito honrado com essa recepção e abertura que todos tiveram comigo aqui. Já estive em outras universidades pelo mundo, mas acho que a PUC Minas é muito especial pela forma como todos são tão acolhedores, amigáveis e receptivos, especialmente os alunos da pós-graduação.
Expediente
Entrevista produzida, traduzida e editada por bolsistas do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, com a supervisão de professores.
Coordenador do Programa
Conrado Moreira Mendes
Membros do Colegiado
Fernanda Nalon Sanglard
Mozahir Salomão Bruck
Edição e supervisão
Marcio de Vasconcellos Serelle
Silvana Seabra Hooper
Bolsistas
Ana Carolyna Gonçalves Barboza
Tainara Diule Cordeiro Martins