22/04/2025 14:30

 PPGCOM conversa com a pesquisadora Adrielle Aparecida da Silva Ferreira

 

Antirracismo na Comunicação Organizacional: entre o performático e o transformador

PPGCOM conversa com a pesquisadora Adrielle Aparecida da Silva Ferreira, indicada por sua dissertação aos prêmios estudantis Compós e Intercom

 

 adirelle 1.png 

Em março de 2024, Adrielle Aparecida da Silva Ferreira obteve o título de mestre pelo Programa de Pós-graduação em Comunicação Social (PPGCOM) da PUC Minas, ao defender sua dissertação intitulada "Organizações (anti)racistas?: Uma análise de práticas discursivas organizacionais em prol da equidade racial". Menos de um ano após a defesa, a pesquisa orientada pela professora Ivone Lourdes de Oliveira recebeu três importantes indicações aos prêmios estudantis Compós e Intercom.

A dissertação explora a relação entre as dinâmicas de poder no contexto das organizações e as temáticas étnico-raciais, com o objetivo de analisar como as empresas brasileiras têm incorporado essas pautas em suas práticas discursivas. O estudo também buscou verificar mudanças nos discursos organizacionais, entre 2018 e 2022, tomando como referência as manifestações do movimento Black Lives Matter após o assassinato de George Floyd nos Estados Unidos. O percurso metodológico, grande desafio e ponto-chave da pesquisa, se baseou na abordagem da Análise Crítica do Discurso, que permitiu investigar a articulação entre texto, prática discursiva e prática social, em publicações no LinkedIn das organizações Vivo, Natura e Ambev, que são signatárias da Iniciativa Empresarial em prol da Equidade Racial. Entre os resultados obtidos, a pesquisa identificou que uma das principais estratégias discursivas adotadas pelas empresas se baseia em campanhas de vagas afirmativas, que valorizam a representatividade numérica, abordando a diversidade enquanto um ativo positivo para a reputação e os resultados operacionais do negócio.

Para discutir a presença de dinâmicas de poder racializadas nos discursos das organizações, o PPGCOM Entrevista conversou com Adrielle sobre a construção teórico-metodológica de sua dissertação.

Conte-nos um pouco sobre a sua formação, trajetória acadêmica até o mestrado e atuação profissional.

Adrielle: Sou graduada em Comunicação Social, com habilitação em Publicidade e Propaganda, quando ainda tinha o curso de Comunicação Social na PUC do São Gabriel. Eu concluí uma pós-graduação lato sensu em Comunicação Estratégica pelo IEC [Instituto de Educação Continuada] PUC Minas, no ano de 2013. Antes de ingressar no mestrado, fiz uma disciplina isolada no PPGCOM PUC Minas com a professora Ivone [Lourdes de Oliveira], em 2018. Essa disciplina acabou culminando, em 2022, no meu ingresso no curso de mestrado do PPGCOM, com um projeto de pesquisa sobre o campo da comunicação no contexto das organizações. Na minha trajetória profissional, foram mais de 10 anos sempre atuando no contexto de organizações privadas e do terceiro setor. Toda a minha carga de experiência profissional foi atuando nesse papel de comunicação organizacional e fazendo, como se diz, "tudo" dentro da comunicação: eu era publicitária, relações-públicas e jornalista. Acho que tive uma vivência bem completa da comunicação nas empresas por onde eu passei e essa minha experiência foi importante para conseguir fazer um bom projeto e escrever uma boa dissertação, a partir do olhar de uma pessoa que sempre esteve nas organizações como comunicadora e sempre problematizou as relações dentro desse contexto.

 

Quais aspectos foram essenciais para a escolha do seu objeto de pesquisa e tema de interesse da dissertação?

Adrielle: Meu objeto de pesquisa tomou forma a partir da minha relação um pouco paradoxal com o contexto das organizações, entendendo que as relações de trabalho não são igualitárias e que não existe uma isonomia dentro dessas relações de poder. No meu tema de pesquisa, eu faço um atravessamento de como as relações no contexto das organizações acolhem a temática da perspectiva étnico-racial, se propondo a uma postura antirracista. Eu acho que um dos grandes achados da minha pesquisa é entender como as relações raciais estruturam essas relações de poder também dentro do contexto das organizações, pensando a partir do conceito de racismo estrutural e considerando que as organizações não são corpos isolados dentro da sociedade, mas sim que elas estão o tempo todo interagindo e de certa forma refletindo a estrutura social. Então, colocando que o contexto das organizações sempre foi pautado por essas relações de poder e por relações de poder que são marcadas racialmente, em que o corpo executivo historicamente se construiu pelo pacto narcísico da branquitude e segue fazendo a manutenção dessa posição, nós podemos pensar como esses discursos [étnico-raciais] partem também da sociedade civil. Nesse sentido, eu recortei a pesquisa em um momento muito emblemático, que foi 2020, no contexto pandêmico, com as manifestações do Black Lives Matter, em função do assassinato do George Floyd nos Estados Unidos. Então, isso reacende um debate que não é novo. É um debate que já é histórico dentro da nossa sociedade, e esse debate chega até as organizações quando elas começam a ser questionadas pela sociedade: quando elas vão tomar posicionamentos para poder mudar essa realidade? Para que mais pessoas negras e de outros recortes sociais passem a ter maior representatividade dentro desses espaços e não só representatividade numérica, mas que de fato essas pessoas venham a ocupar posições de tomada de decisão que efetivamente fazem com que as mudanças aconteçam.

 

Ao longo do desenvolvimento da dissertação, como foi o processo de pesquisar a comunicação no contexto organizacional sob a perspectiva da temática racial?

Adrielle: Foi um desafio porque não tinha e ainda não tem um histórico muito consolidado desse recorte dentro do que a gente já tem de pesquisas publicadas na área da comunicação organizacional especificamente. Então, eu já tinha uma visão de que o meu objeto empírico seria voltado para as publicações de organizações empresariais dentro da plataforma do LinkedIn. E quando eu comecei a estruturar mesmo a pesquisa, pensei como iria fazer a articulação teórica para ancorar esse objeto empírico, indo além da fonte tradicional da comunicação organizacional sobre as relações dentro desse contexto. Então, tive que articular essa bibliografia do campo [da comunicação organizacional] com uma perspectiva das relações étnico-raciais e da literatura afro-centrada. Lélia Gonzalez, Abdias Nascimento, Sueli Carneiro e Cida Bento foram autores fundamentais para eu entender esse contexto social brasileiro. Eu acho que é importante frisar que no Brasil a gente não teve uma segregação racial explícita por meio de dispositivos legais, como o apartheid na África do Sul ou contexto histórico dos Estados Unidos. Aqui a gente nunca teve essa realidade, embora a história dos movimentos negros consiga identificar alguns dispositivos legais que indiretamente iam fazendo esse cerceciamento da população negra, criando uma segregação que era velada, mas que na verdade sempre foi muito bem marcada. [...]



"Por meio da construção de novas narrativas e discursos, contribuímos para quebrar estigmas, que infelizmente ainda estão muito presentes no nossocotidiano". 

Adrielle Ferreira. (Foto: Acervo pessoal).



Adrielle:
 [...] Sueli Carneiro fala do dispositivo de racialidade, que foi um dos conceitos teóricos mais importantes para que eu pudesse articular com o meu objeto empírico e com a bibliografia tradicional do campo comunicacional, entendendo a raça como esse dispositivo que posiciona pessoas brancas e pessoas negras em lugares muito diferentes. Isso é reforçado por meio de estereótipos que aparecem midiaticamente ao longo da história, nas novelas e na publicidade. Então, quando você transpõe para dentro do contexto das organizações, esse dispositivo também é muito marcado. Muitas vezes, as organizações trazem dados como "temos um percentual de 50% dos nossos funcionários que são pessoas negras". Mas onde essas pessoas estão efetivamente trabalhando? Elas estão nos postos de liderança e nos postos de poder? Nos resultados da minha pesquisa, pensando como as empresas se apropriaram dos discursos, a gente percebe que a estratégia mais utilizada foi a de vagas afirmativas porque demonstra um reforço númerico. A empresa pode falar que está contratando mais pessoas em vagas afirmativas, mas quando paramos para analisar a maioria das vagas é de analista, assistente ou alguns cargos de média liderança. Dificilmente vemos posições gerenciais mais elevadas, o que gera esse questionamento de até que ponto essa equidade, de fato, está sendo buscada pelas organizações.


Ao longo do desenvolvimento da dissertação, como foi o processo de pesquisar a comunicação no contexto organizacional sob a perspectiva da temática racial?

Adrielle: Eu acho que isso impacta, pessoalmente falando, na questão da minha responsabilidade e transparência enquanto pesquisadora. Eu sei que eu não estou falando do lugar de uma pessoa negra. Embora, ao longo da minha história, eu sempre tenha me identificado como uma pessoa parda, em função da cor da minha pele e de algumas experiências, no momento em que eu me coloco enquanto pesquisadora, eu não me sinto confortável com uma afirmação como integrante da categoria pessoas negras, considerando como o IBGE [Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística] faz essa leitura. E eu coloco isso de uma forma a também tensionar a própria branquitude. E eu acho que o segundo ponto é a sensibilidade da temática. Para entender que, apesar do meu lugar não ser o da pessoa que é diretamente afetada por aquilo, eu me sensibilizo com aquela temática e consigo ser, de fato, uma aliada nessa luta. A partir de um lugar de muita responsabilidade e de uma ética enquanto pesquisadora, que eu acho que foi o principal motivador. E eu acho que poder se colocar dentro desse processo de pesquisa é um caminho que tem sido cada vez mais incentivado dentro das pesquisas aqui no PPGCOM PUC Minas. Eu vejo isso de uma maneira muito positiva e eu me senti muito confortável em apresentar essa subjetividade na pesquisa. Se fosse outra pessoa que tivesse tido outras vivências, mesmo pesquisando o mesmo tema, possivelmente teria chegado a outros resultados, devido a essas subjetividades.

 

Como foi desenvolver a construção metodológica da dissertação, baseada na Análise Crítica do Discurso? Qual foi o seu maior desafio nesse aspecto?

Adrielle: Eu acho que o grande desafio é pensar que a metodologia talvez seja o grande calcanhar de Aquiles dentro de uma pesquisa. Quando comecei a pesquisar, eu tinha uma expectativa de que existia uma fórmula pronta de como que se opera um determinado método. Mas a Análise Crítica de Discurso (ACD), que o Fairclough propõe, não tem um como fazer. É a partir da nossa subjetividade como pesquisador que interpretamos o que ele traz como arcabouço teórico para entendermos como ACD pode ser utilizada em leituras das relações de poder e dos discursos que estão circulando no mundo. Olhando para as relações de poder, elas partem de um topo que oprime uma base, mas não tem só essa relação, há relações que circulam também. Então, a ACD conversa muito com a perspectiva teórica dessa circularidade dessas relações de poder. Esse foi o primeiro desafio, o segundo foi conseguir organizar todos esses discursos coletados e pensar numa lógica para essa análise. A lógica que eu escolhi para fazer um recorte do objeto empírico, num universo de quase 80 organizações, foi entender como as organizações estão se mobilizando para a temática da diversidade da inclusão. Buscamos pensar em como o aspecto racial está sendo pleiteado pelas organizações dentro de políticas de diversidade e inclusão que estão sendo implementadas. A partir disso, eu achei a IER [Iniciativa Empresarial em prol da Equidade Racial] e pensamos em olhar para as empresas nacionais, já que estávamos falando do contexto brasileiro que tem uma problemática diferente para tratar da questão racial. Chegamos em três empresas, no final das contas: Vivo, Natura e Ambev. Essas três empresas foram as únicas de toda a coleta que fizeram uma menção direta ao assassinato de George Floyd, o Black Lives Matter. De uma certa forma, é como se eu tivesse construído uma cronologia, de como cada organização foi se apropriando desses discursos, se colocando perante a sociedade. Ao final, chegamos num quadro com diferenças e semelhanças na forma como elas decidiram se apropriar. Conseguimos perceber que há avanços, discursivamente falando. Eu acho que é um momento quase que inédito na história em que há um movimento, com certa coerência, que de fato demonstra uma intencionalidade de buscar essa mudança. Mas ainda é um percurso, é um caminho inicial, de uma luta de movimentos negros que já vem há décadas, quase que secular.

 


"É a partir da subjetividade de cada pesquisador qu podemos entender como a Análise Crítica do Discurso pode ser utilizada em leituras das relações de poder e dos discursos que estão circulando no mundo".

Adrielle Ferreira. (Foto: Ana Carolyna Gonçalves).

 

 

A seção de análise de sua dissertação questiona se as "vidas negras (realmente) importam para as organizações?". Considerando que a agenda ESG (Ambiental, Social e Governança) também consiste em um aspecto estratégico para a gestão econômica e o relacionamento com os públicos das empresas, qual resposta ou perspectiva você vislumbra para tal pergunta após a pesquisa?

Adrielle: Eu não tenho exatamente uma resposta. Tenho algumas sinalizações. Pegando um gancho do final da minha fala anterior, ainda que a gente veja alguns avanços, a gente entende que a agenda é apropriada como uma estratégia empresarial. Não é de fato uma preocupação com aquelas vidas. Se pensarmos no nosso contexto atual, estamos num momento pós-eleição de Trump, com uma desaceleração das políticas de diversidade e inclusão nos Estados Unidos. Temos visto várias empresas no contexto dos Estados Unidos, como a Google e a Meta, fazendo esses movimentos de desacelerar esses investimentos em áreas de diversidade e inclusão. E isso gera preocupação no contexto brasileiro. No entanto, percebemos que algumas organizações, como a própria Natura, que foi uma das empresas que fez parte do meu objeto, já se posicionaram falando que não vão voltar atrás, que vão seguir construindo nesse caminho, porque acreditam que não pode haver retrocesso nesse sentido. E eu espero de verdade que isso seja mantido. Eu penso que essa pauta, sempre vai ser uma pauta em disputa, eu não acho que vamos chegar num contexto em que não vamos mais vai precisar lutar por isso. Essas lutas se atualizam ao longo do tempo, por isso eu acho que esse movimento recente é mais um reflexo dessa disputa em torno dessa pauta. Acho que não tem uma resposta se de fato importa ou não importa [para as empresas]. Eu acho que a questão é a sociedade civil estar sempre vigilante e cobrando das organizações para que esses compromissos que foram firmados efetivamente sigam sendo mantidos, independente de políticas externas que possam influenciar esses movimentos. Isso com certeza contribui para a gente quebrar esses estigmas. Não significa que isso vai ser quebrado do dia para a noite. É uma luta o tempo inteiro.   Eu acredito que esses paradigmas são quebrados a partir do reforço discursivo, da representatividade nas produções cinematográficas e com mais  pessoas negras posicionadas em lugar de prestígio também. Então, ao construirmos novas narrativas e discursos e as organizações se posicionando também nesse sentido, vamos contribuir para quebrar esses estigmas, que infelizmente ainda estão muito presentes no nosso cotidiano.

 

Por fim, gostaríamos de saber o que a indicação aos prêmios estudantis Compós e Intercom significou para você?

Adrielle: É até difícil falar, mas eu fiquei muito orgulhosa. Eu acho que consolida um trabalho que foi feito com muita seriedade e com um esforço muito grande. Eu falo que, para mim, as coisas nunca foram dadas, nunca foram fáceis, sempre exigiu um esforço. Então, para mim é um reconhecimento e uma responsabilidade muito grande também. Porque ser representante do PPGCOM para mim é estar representando todos os discentes que estão aqui, que passaram por aqui, principalmente aqueles que passaram junto comigo, que tenho certeza que têm trabalhos tão incríveis quanto o meu. Por isso, é uma honra estar representando o PPGCOM, independente de trazer uma premiação porque estamos concorrendo com universidades do Brasil inteiro e eu acho que já é grandiosíssimo poder ser essa representante.  Eu fico muito feliz com isso!

 

Clique aqui e ouça os destaques da entrevista na Pílula do PPGCOM Entrevista, em formato de áudio.


Expediente

Entrevista produzida e editada por bolsistas do Programa de Pós-graduação em Comunicação Social da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, com a supervisão de professores.

 

Coordenador do Programa

Conrado Moreira Mendes

 

Membros do Colegiado

Fernanda Nalon Sanglard

Mozahir Salomão Bruck

 

Edição e supervisão

Marcio de Vasconcellos Serelle

Silvana Seabra Hooper

 

Bolsistas

Ana Carolyna Gonçalves Barboza

Tainara Diule Cordeiro Martins



Parceiros