Entrevista Rodrigo Baroni

APOSTANDO NA MÁGICA DA ESPERANÇA



Difícil definir nosso entrevistado a partir de uma coisa só. O percurso mágico do prof. Rodrigo Baroni não permite. Isto porque ele é um verdadeiro alquimista do conhecimento. Com sua varinha de pesquisa, ele desvenda os mistérios da Gestão da Inovação, a magia do Conhecimento e os encantamentos da Inteligência Competitiva. Mas não se engane: Baroni não vive apenas nos livros e bancos de dados. Ele já foi um Analista de Sistemas aventureiro, desbravando terras como a Cemig, Acesita, Belgo Mineira Sistemas (Arcelor), Bemge e até o poderoso Banco de Desenvolvimento de Minas Gerais (BDMG). Com 17 anos de experiência, ele conhece os segredos dos bits e bytes como ninguém. Seus temas de pesquisa são como ingredientes mágicos em um caldeirão acadêmico: Gestão da Inovação, Gestão do Conhecimento, Gestão de Pessoas e até mesmo a Administração Pública. Ele mistura Tecnologia com Ciência da Informação, criando poções que transformam dados em sabedoria. Na entrevista a seguir, Rodrigo Baroni vai nos falar de futuro. São informações e opiniões importantes para todo aquele que quer fazer do mundo em que vive um lugar em que a principal magia seja revelar o que há de melhor no ser humano e naquilo que ele é capaz de construir com seu trabalho e conhecimento. Confira.

Foto de Rodrigo Baroni



Como você avalia o impacto da transformação digital no contexto laboral?

O impacto que a transformação digital terá no mundo do trabalho faz parte do ambiente da chamada quarta revolução industrial, ou indústria 4.0. Mas é preciso voltar no tempo para responder a esta pergunta. É necessário relembrar que a indústria 1.0 veio com o vapor, que a 2.0 aconteceu com a eletricidade e que a terceira vem, principalmente, com a tecnologia de informação e com a comunicação. A quarta, então, será a revolução dos chamados sistemas cyber físicos, que envolvem a integração de tecnologias como a big data, trazendo um grande volume de dados que torna possível e real a questão da inteligência artificial. É daí que virão uma série de inovações que já são reais: o robô, tanto do ponto de vista do software como do hardware; as impressoras 3D; a realidade virtual aumentada; e muitas outras coisas que irão trazer, a reboque, aquilo que se poderia chamar de “olhar da segurança da informação”.

Quando você fala em segurança, está querendo dizer que essa indústria não traz apenas vantagens?

Com a Revolução 4.0 teremos, em primeiro lugar, uma maior comodidade, uma vez que as atividades rotineiras tenderão, em boa parte, a serem assumidas por máquinas. Mas, como já disse, este processo vem da primeira revolução industrial. O que estamos fazendo é incorporar novos níveis de inteligência, em função da capacidade das máquinas. Lembra do Carlitos no filme Tempos Moderno? Mas, por outro lado, existem também desvantagens. Uma delas é a questão da segurança da informação. Em nossa sociedade, renunciamos à privacidade em função da comodidade. O Waze, por exemplo, sabe exatamente todos os caminhos que fazemos. Sua empresa de cartão de crédito sabe de cada um dos seus gastos e tem todas suas informações. A Amazon lhe oferece produtos que você nem sabe ainda que deseja.

Trata-se de uma questão bastante sensível...

Exatamente. Mas não é só isso. Para o Fórum Econômico Mundial se preocupa também com uma outra questão, que é a da redução de empregos. É que toda revolução industrial traz com ela uma questão decisiva: a da chamada destruição criativa. O que se observa é a exigência de mão de obra cada vez mais qualificada. Assim, o grande desafio dos educadores é formar pessoas capazes de enfrentar uma sociedade digital. Então, a desvantagem se transforma em desafio. Contudo, tudo isso pode variar. O mundo e o Brasil, por exemplo, possuem realidades distintas, que devem ser conciliadas. Outro dia, parei em um sinal vermelho: à minha esquerda, também parou um carro híbrido; à minha direita, uma carroça. O que isso nos mostra é que precisamos entender que as coisas não acontecem todas de uma vez.

Quais são os desafios no sentido de conciliar estas diferentes etapas?

O grande desafio da sociedade digital é perseguir uma economia do conhecimento. Então, voltamos novamente para a qualificação, pois é a partir da formação das pessoas e das organizações que as transformações acontecem. O futuro chega em épocas diferentes, e em organizações diferentes. Muitas vezes, algumas das discussões que fazem parte do dia a dia de uma determinada organização, para outra não está sequer no radar. O mesmo acontece com os indivíduos: o que para mim é realidade, para você não tem importância real e estratégica. Uma pergunta que eu ouço muito dos alunos é clássica “a inteligência artificial vai tirar meu emprego?” Minha resposta é a mesma: você não vai perder o emprego para a inteligência artificial. Você vai perder o emprego para alguém que souber usar a inteligência artificial melhor do que você.

Onde a ética entra nesse assunto?Onde a ética entra nesse assunto?

Estamos completando 25 anos da clonagem da ovelha Dolly. Isto aconteceu a partir de uma tecnologia desenvolvida por humanos. Mas este conhecimento não veio sozinho. Junto com ele, vieram padrões éticos que nortearam a ciência. Acredito que o mesmo acontecerá com a questão da Inteligência Artificial. Ela não vai substituir o médico, o professor, o advogado, o engenheiro, mas, como já acontece, ela vai transformar radicalmente o trabalho de todos esses profissionais. Será preciso conciliar o físico com o digital.

Esta conciliação já acontece, não é mesmo? Foi, por exemplo, o que alunos e professores viveram aqui mesmo na PUC Minas durante a pandemia...

A pandemia, mencionada por você, trouxe a necessidade do trabalho online. Mas, agora, esse mesmo trabalho online, está trazendo a necessidade do trabalho presencial. Então, a ideia talvez seja de que, se for pra ficar sentado em sua empresa conectado na internet, é melhor ficar em casa. Quando for à empresa, é preciso que o contato humano traga diferenças e ganhos, o que é essencial para as organizações. Gosto muito de trocadilhos. Um bom é que temos também que trocar o touch screen pelo touch skin. O contato também é muito importante. Sobretudo para esta nova geração que nasceu em um mundo digital. Ou seja: temos que conciliar o físico e o digital para poder caminhar em direção ao futuro.

É preciso mais humanidade, então...

Sim. O presidente da consultoria McKinsey disse certa vez que as máquinas vão nos forçar a nos tornarmos mais humanos. O que ele queria falar é da importância dos soft skills, do valor da escuta, da empatia, da tolerância, do respeito à diversidade. É preciso saber integrar, conversar, escrever bem. Pode ser que, no futuro, tais atributos sejam vistos como importantes diferenciais competitivos pelas organizações. Aliás, isso já vem ocorrendo.

O mundo muda...

Ele se inscreve no tempo. Quando eu era criança, minha mãe falava assim: -"Menino, sai da rua, vem pra casa". Hoje, muitas mães dizem: -"-Menino, sai de casa, vai pra rua". E esses meninos, meninas, adolescentes devem pensar, que estão na frente de um computador em pleno sábado à noite, devem se perguntar: por que eu vou sair se está todo aqui na internet comigo, jogando? Às vezes, é preciso ensinar esta geração a fazer unplugged, desligar da tomada. Um aluno me disse que a empresa dele, em dias de trabalho presencial, estimula a prática de ioga e meditação. E isso acontece porque as corporações entendem, e não apenas elas, mas as escolas também, que fatores como socialização são fundamentais na formação estrutural das pessoas.

Na comunicação isso também acontece.

Sim. Vivemos na sociedade da informação. Muitas vezes, na ansiedade da informação. Ficamos preocupados com a mensagem de WhatsApp que não respondemos, com o livro que ainda não foi lido, com a série da qual todo mundo falou e que eu tenho que assistir. No entanto, informar-se bem é também fazer escolhas, é saber escolher as melhores fontes de informação, é ser seletivo na hora de escolher essas fontes, buscando comprovações reais e não acreditando em qualquer coisa, é estabelecer conexões sociais saudáveis...

Para você, o que é uma conexão saudável?

É você se conectar também com quem pensa diferente de você, é sair da sua zona de conforto. Se eu converso apenas com quem têm as mesmas opiniões que eu, qual a chance de eu desenvolver novos pontos de vista? E isso vale pra tudo, até para os nossos sentidos. Gosto de dizer que o paladar é uma extensão da inteligência. Se a pessoa só come comida mineira, ela jamais vai experimentar sabores diferentes. É necessário se integrar. Para fazer a animação Ratatouille, a Pixar pediu a alguns de seus desenhistas que fizessem cursos de culinária. Ela entendeu que o filme ficaria melhor se juntasse o desenho na máquina com uma experiência real sobre o que era desenhado.

E com relação aos ambientes de trabalho, o que vem acontecendo?

A sociedade digital misturou os ambientes. Mas é preciso saber a dose correta de cada um. Uma expressão que sintetiza essa mistura é o home-office. Na pandemia, contudo, sentimos que a prática ficou mais office do que home. Trabalhou-se além da conta. As grandes corporações perceberam que precisavam partir para a educação. Foi então que veio a ideia de educação corporativa.

E a pessoa, como fica?

Hoje, é preciso perceber a ideia de segurança psicológica. O que se persegue atualmente é que a pessoa possa estar cada vez mais inteira no ambiente de trabalho. Antes, você entrava no escritório e deixava suas emoções lá fora. Atualmente, a tomada de decisão também é valorizada a partir da subjetividade. Assim, mesmo que o trabalho com indicadores, por exemplo, seja altamente objetivo, é necessário que aspectos de subjetividade sejam perceptíveis. Um dos atributos mais interessantes da chamada nova geração é seu senso de propósito. Há práticas de outras gerações que agora não são mais toleradas. Um exemplo: a questão do assédio moral. Hoje, pontos como este são combatidos e responsabilizados. Com isso, ganha o ser humano.

Mas as contradições ainda existem, não é?

Sim. E precisam ser percebidas e acertadas. Tome-se o Uber como exemplo. Aqui estamos falando de uma tecnologia do século 21, com uma relação trabalhista do século 19. Então, o que realmente é preciso é que essas novas dinâmicas sejam permanentemente repensadas. Algumas empresas perceberam, por exemplo, que a saúde mental de seus funcionários deve ser cuidada. Não adianta contratar o sujeito e dar para ele uma caixa de Rivotril de presente.

Como acertar essas contradições?

A educação está aí pra isso. No que se refere à questão digital, da qual estamos falando, é necessário pensar nas pessoas que estão à margem da inclusão. Tais pessoas são muito facilmente capturadas pelo retrocesso.

Há esperança?

Claro! E ela está nas novas gerações, em nossos filhos, nos nossos alunos, nos rapazes e moças que estão no ICEG pensando em uma economia diferente, em uma maneira mais humana e verdadeira de administrar processos, de contabilizar o que realmente interessa para um futuro melhor. As novas gerações são muito mais conscientes, ecologicamente, do que a nossa. Mas minha maior esperança é que haja, realmente, a construção de uma pauta capaz de apostar numa inovação verde. Uma pauta que traga oportunidades de repensarmos estilos de vida e prioridades. É a partir daí que as coisas podem começar a mudar de verdade. Convém lembrar a célebre frase de Peter Drucker: “A melhor maneira de prever o futuro é criá-lo”. Devemos assim compreender que não somos espectadores do futuro, mas que podemos ser protagonistas e agentes ativos desta construção coletiva.




PUC Minas | Instituto de Ciências Econômicas e Gerenciais
Av. Dom José Gaspar, 500 Prédio 14. Coração Eucarístico. Belo Horizonte, Minas Gerais.
iceg.atendimento@pucminas.br (31) 3319-4250 / 3319-4253 / 3319-4255