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ECONOMIA DE FRANCISCO: UMA AGENDA PARA A UNIVERSIDADE

Ismael Deyber 

 

"A economia – como indica o próprio termo – deveria ser a arte de alcançar uma adequada administração da casa comum, que é o mundo inteiro."

(Papa Francisco, Encíclica Evangelli Gaudium)

 

As relações econômicas estão entre as questões mais importantes que permeiam o acesso dos povos e nações aos bens e serviços que necessitam para uma sobrevivência digna. Nesse aspecto, os governos, as organizações empresariais e os atores da sociedade civil são convidados a atuarem de forma a favorecer a produção e distribuição equitativa dos recursos de maneira a oportunizar o alcance do bem-estar coletivo, com especial atenção para o equilíbrio da vida no planeta. Entretanto, a complexificação das relações econômicas que ganharam espaço com os eventos de modernização ocorridos em escala global e a predominância de princípios excessivamente competitivos como eixos dirigentes da produção e acumulação vem traçando itinerários que produzem efeitos no sentido oposto. O olhar atento às realidades que nos cercam revela o desequilíbrio existente entre os países e as crescentes desigualdades econômicas e sociais entre as pessoas, o que tem caracterizado nas palavras do Papa Francisco um sistema econômico que mata. 

Atento e preocupado com esse cenário mundial de desigualdade, pobreza e consumo predatório dos recursos naturais, que contraria a dignidade da pessoa humana e desrespeita as demais formas de vida do planeta, o Papa Francisco tem colaborado de forma significativa para intensificar o debate mundial na esfera econômica. Desde o início de seu pontificado, em 2013, foram frequentes as ocasiões em que por meio de discursos, documentos, encontros com líderes políticos e movimentos populares, exprimiu de forma direta sua discordância com esse modelo de desenvolvimento econômico que antepõe a acumulação para uma minoria à sobrevivência digna para todos os povos.  

Nesse sentido, é oportuna e reúne grandes expectativas de contribuição para o debate global à convocação feita pelo Papa Francisco para se pensar uma nova economia, que esteja a serviço da vida. Convocando jovens economistas e profissionais de áreas relacionadas, assim como empresários e líderes da sociedade civil para estarem em diálogo com novas perspectivas de pensamento e propostas de transformação, Francisco aprofunda sua postura de diálogo e de preocupação com os grandes problemas que envolvem a humanidade. Denominado "A Economia de Francisco", em referência ao santo do qual o pontífice encontrou inspiração para seu nome, o evento ocorrerá em Assis, na Itália, em março de 2020, e acumula o potencial de influenciar os rumos do pensamento econômico, procurando fortalecer as perspectivas que se orientam ao desenvolvimento humano, mais equitativo e atento a todas as formas de vida no planeta.

Considerando esse importante evento convocado pelo líder da Igreja Católica e seu significado para o contexto que vivemos, tanto no Brasil como na América Latina, onde os índices de pobreza alarmantes convivem com uma concentração cada vez maior das riquezas, torna-se fundamental dar ressonância a esse debate no âmbito da Universidade, espaço que acumula o potencial de contribuir de maneira significativa com propostas embasadas na teoria e na divulgação de práticas exitosas desenvolvidas no contexto ao qual se insere. A Universidade, como espaço plural da construção do saber científico, do diálogo aberto e criativo e da articulação dos saberes, práticas e tecnologias para a promoção do desenvolvimento social, é um espaço privilegiado para dar ressonância ao debate sobre os problemas complexos da sociedade, buscando alternativas para solucioná-los. Dessa maneira, a convocação do Papa Francisco apresenta-se como uma agenda fundamental para o cotidiano das Universidades, especialmente as confessionais (mas não só essas!) nos três eixos que as estruturam. Torna-se imperativo agregar, em uma perspectiva transdisciplinar, os princípios da Economia de Francisco no ensino, na pesquisa e na extensão, por meio de reflexões e ações, colaborando para formar agentes da transformação de uma forma crítica, que estejam empenhados em dirigir a economia para o bem-comum.