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"PARA QUE TENHAM VIDA E A TENHAM EM ABUNDÂNCIA" (Jo 10,10)

Marcus Mareano

 

Quem jamais experimentou um vazio existencial? Quem não se sentiu sozinho e abandonado em meio a tantas pessoas? Sentimentos e pensamentos que veem e, às vezes, permanecem devem ser bem considerados, sobretudo, em nossos tempos atuais em que vivemos em uma sociedade acelerada e complexa. A vida é mais do que meramente existir. Tais ideias surgem para nos mover para além de onde estamos.

Independentemente de raça, idade ou cultura, o ser humano anseia o infinito. Toda pessoa, em momentos da vida, depara-se com essa verdade sobre si mesma e com a insatisfação em relação às realidades criadas: o mundo, os objetos, as outras pessoas, as circunstâncias e a própria existência. A matéria não nos basta, possuímos uma abertura ao transcendente, que nomeamos como Deus, e, enquanto não o buscamos, continuamos inquietos e seres frustrados, sem sentido maior para viver.

A falta de motivos para a vida pode levar ao extremo de uma pessoa suicidar-se. O Brasil, segundo a OMS (Organização Mundial de Saúde), ocupa o oitavo lugar no ranking mundial com maior número de suicídios. Por diversos motivos, pessoas, na maioria jovens, cansam-se da árdua tarefa de buscar ser feliz e desistem de tudo. Neste mês de setembro, dedicado à campanha para a prevenção de suicídio, vale se questionar sobre a possibilidade de uma real felicidade. Não significa que não há nada por resolver, somos seres em construção e nunca estaremos prontos. Felicidade é empenho, escolha, constância e realização momentânea nessa esfera espaciotemporal que nos situamos.

Santo Agostinho experimentou uma vida dissoluta e devassa. Em meio aos prazeres e satisfações de desejos, ele teve um maravilhoso encontro com Deus que o amou e assim ele expressou sua experiência: "Tarde te amei, ó beleza tão antiga e tão nova! Eis que habitavas dentro de mim e eu te procurava do lado de fora! Eu, disforme, lançava-me sobre as belas formas de tuas criaturas. Estavas comigo e eu não estava contigo (...). Tu me chamaste e teu grito rompeu a minha surdez. Fulguraste e brilhastes e tua luz afugentou minha cegueira (...). Eu te saboreei, e agora tenho fome e sede de ti. Tu me tocaste, e agora estou ardendo no desejo de tua paz" (Confissões X, 38).

Nessa busca por felicidade e plenitude de vida, o ser humano pode encontrar, por meio de uma experiência de fé, o mistério de Cristo. A existência humana real de Jesus propõe uma resposta para a sua grande inquietação existencial. Jesus nos apresenta o amor, enquanto saída de si para os outros, como remédio contra a falta de sentido. Essa foi sua maneira de viver!

Mais que um mero personagem e um evento histórico do passado, a sua vida, paixão, morte e ressurreição se tornam um paradigma para refletirmos nossa humanidade. Jesus ao apresentar quem é Deus, revela a quem é o humano. Hoje, ele se faz presente por meio do seu Espírito, que é o amor de Deus presente nos corações das pessoas, impulsionando cada um para a meta da sua própria razão de ser: a comunhão de/no amor. Na medida em que se responde ao amor vamos nos realizando, amando e dando sentido ao nosso breve existir.

Quando o vazio bater na porta da nossa vida, podemos recordar outra porta pela qual podemos entrar. Jesus diz ser a porta pela qual, quem entra, recebe a vida   (Jo 10,7-10). O convite continua a ecoar e a propor-se. Não nascemos para meros dias adversos, mas a abundância ofertado no mistério de amor.