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DO MESTRE AOS MESTRES: "sereis felizes se praticardes” (Jo 13,17).

Marcus Mareano

 

A poetisa Cora Coralina conta belamente sobre o ofício de ensinar nestes versos de um conhecido poema: “feliz aquele que transfere o que sabe/e aprende o que ensina”. Em um contexto sociocultural brasileiro cada vez mais desafiador para o professor, ensinar nos tempos atuais constitui uma tarefa que necessita de encantamento para exercê-la.

A educação não é mera transmissão de conhecimento por meio de uma postura de quem sabe para quem não sabe. Essa imagem está ultrapassada. Os novos tempos pedem inovadas condutas. Ser professor implica em um envolvimento com o processo de maturação e aprendizado das pessoas. Portanto, algo mais existencial e comprometido do que mecânico e impessoal.

Diferentes dados de fontes diversas em uma rápida busca pela internet assustam-nos sobre a educação brasileira: o Brasil ocupa o 53º lugar em educação, entre 65 países avaliados (PISA); 731 mil crianças ainda estão fora da escola (IBGE). O analfabetismo funcional de pessoas entre 15 e 64 anos foi registrado em 28% no ano de 2009 (IBOPE); 34% dos alunos que chegam ao 5º ano de escolarização ainda não conseguem ler (Todos pela Educação); 20% dos jovens que concluem o ensino fundamental, e que moram nas grandes cidades, não dominam o uso da leitura e da escrita (Todos pela Educação). Para agravar, há professores recebendo menos que o piso salarial, com poucas condições de trabalho, sem a colaboração da família com a educação, entre outras queixas e carências percebidas.

Jesus ilumina com sua vida uma maneira de exercer esse ofício. Ele foi um “mestre” distinto e exemplos de “extravagâncias” de Jesus não faltam nos evangelhos: ele escolhia seus discípulos ao invés de ser escolhido (Mc 3,13-19; 6,7); fazia dos discípulos seus amigos (Jo 15,15); era exigente com os seguidores (Lc 9,57-62; 14,25-27); tornou-se um servidor (Jo 13,12-16); permitia mulheres em seu seguimento (Lc 8,1-3) e muitos outros exemplos. Ele era um “professor” que ensinava mais por ações do que por discursos, mais observava e cuidava do que impunha e rejeitava. Por conseguinte, “todos ficavam maravilhados com seu ensinamento, pois ensinava como quem tem autoridade” (Mc 1,22).

O ingrediente que não faltava no ensino de Jesus era o amor. Como observado em sua vida, ele amou até o extremo (Jo 13,1); por amar, acolhia e se doava até as últimas consequências. Essa existência se assemelha a muitos exemplos de outros mestres que conhecemos e que, igualmente, vivem a oferecer-se por amor à experiência de formar seres humanos. Por esse motivo, a nossa homenagem aos diferentes mestres das nossas vidas, de quem guardamos não apenas o conteúdo recebido, mas, sobretudo, a presença existencial.

Que a vida de Jesus continue a nos ensinar a viver. Um mestre tão admirável naquele tempo pode continuar a causar fascínio nas pessoas do século XXI. Seu exemplo excede às palavras narradas e indica uma felicidade não encontrada na matéria ou nas circunstâncias, mas em uma opção pela plenitude da vida.