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A Escola de Teatro estreou o espetáculo 'Eclâmpsia' rodrigueana escancara a hediondez humana. A apresentação é de quinta a sábado, até 11 de dezembro, às 20h30. A entrada é gratuita. A distribuição de senhas ocorrerá uma hora antes do início do espetáculo. Sujeito à lotação do espaço.

"Eclâmpsia" é uma complicação grave que pode ocorrer na gravidez. Quando uma lacônica Dona Senhorinha menciona na peça o ocorrido, trata-se de um spoiler que revela pouquíssimo da série de tragédias que ali são expostas, mas que explicita, no fundo, a essência de Álbum de Família (1945): todo o mal começa no útero.

Proibida em seu lançamento e só liberada para a encenação 20 anos depois, a obra mostra o porquê de Nelson Rodrigues (23/08/1912-21/12/1980) tê-la enquadrado como parte de seu "teatro desagradável", expressão cunhada por ele mesmo. "Álbum de Família" é, ao mesmo tempo, uma preciosa e nauseante visita pelas relações íntimas estabelecidas em uma família tradicional patriarcal brasileira. Escorada na fé, na moral e nos bons costumes, mostra em sua intimidade os mais terríveis desvios da conduta humana, tais como incesto e assassinato, para que todos, por meio da ficção, façam da realidade algo diferente, e, para muitos, sua redenção.

"Nelson é muito maior do que essa rasa e recorrente taxação de imoral", enfatiza Luiz Arthur, que dirige a montagem. "Quando disse que 'o ser humano só se salva se reconhecer a própria hediondez', Nelson deixa claro sua intenção de ampliar ao máximo em sua obra os desvios de caráter que nos cercam a todo momento e os nossos mais primitivos instintos para que o público seja impactado de maneira profunda", explica o diretor.

"Refletir sobre esse estado das coisas foi o que me fez chegar ao 'Álbum', depois de ter dirigido as outras três peças míticas rodrigueanas ('Anjo Negro', 'Dorotéia' e 'Senhora dos afogados'). Pra mim, é a única que, de certa forma, também carrega elementos das tragédias cariocas, e, por isso mesmo, nessa mescla, amplia os seus horrores", conta Luiz Arthur, referindo-se à classificação da obra de Nelson Rodrigues realizada pelo crítico teatral Sábato Magaldi, falecido em 2016.

Luiz Arthur resolveu dar o nome ao espetáculo de "Eclâmpsia" também porque há liberdades em sua criação dramatúrgica: a personagem Mariazinha Bexiga, só citada na obra original, entra em cena para ser mais do que uma simples referência ao meretrício e um sempre mudo personagem Nonô, nesta versão, ganha voz falada, por meio de fragmentos do autor Lima Barreto (13/05/1881-01/11/1922).

"Vi há muitos anos a inesquecível versão do 'Álbum' feita pelo Grupo Galpão, com direção do Eid Ribeiro, e também uma direção conjunta dos meus queridos amigos Carlos Gradim e Mônica Ribeiro, montagem também com alunos. Como queria homenagear o Lima Barreto, que é citado en passant no 'Álbum', porque Nelson o admirava profundamente, e sem falar que em 2022 é o seu centenário de falecimento, então quis utilizar o desconforto que Nonô causa nas pessoas para colocar trechos do 'Diário do Hospício' em cena", revela Luiz Arthur. "Lima Barreto descreve o que viveu na pele, a exclusão social, a loucura e o racismo. Nonô não é apenas o 'fora da curva', assim como Lima Barreto o foi. É a criança que todos deveríamos e poderíamos ser. Nonô e Lima revelam o caos que carregamos, seja bom ou mau", conclui o diretor. 

"Eclâmpsia" – Ficha técnica

Livre adaptação da obra "Álbum de Família"

de Nelson Rodrigues

Direção, dramaturgia, cenografia, iluminação e trilha sonora: Luiz Arthur

Textos: Nelson Rodrigues e Lima Barreto

Figurinos: Cynthia Paulino

Maquiagem: Linda Paulino

Operação de som e luz: Yasmine Rodrigues

Execução de cenografia: Pró-Reitoria de Logística e infraestrutura

Em cena: Elenco formado pela Escola de Teatro PUC Minas

Crédito das fotos: Fábio Teixeira

Realização: Escola de Teatro PUC Minas

 

Temporada:

Até 11/12, de quinta a sábado, às 20h30. Gratuito. Distribuição de senhas 1h antes do início do espetáculo.

Sujeito à lotação do espaço.

Local:

Escola de Teatro PUC Minas

Campus Coração Eucarístico, prédio 20, acesso 09.

Av. 31 de março, 577 – Coração Eucarístico.

Classificação indicativa: 16 anos.

Informações: escoladeteatro@pucminas.br

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