Como manter a disposição e a esperança no isolamento?

Enfrentar a disseminação mundial de uma doença nova e cheia de mistérios não é tarefa fácil. São meses de insegurança, incerteza e uma pergunta que ocupa diariamente nossos pensamentos: como manter a disposição e a esperança depois de tanto tempo de isolamento?

Para Cristina Campolina Vilas Boas, professora da Faculdade de Psicologia da PUC Minas, o enfrentamento da pandemia tem sido diário e feito de modo coletivo. "Entendo que já passamos por algumas fases e considero que a primeira delas foi a mais difícil: uma nebulosa que se impôs a todos, um corte radical nos modos de vida conhecidos. Depois, passamos por um respiro, uma tomada de fôlego junto com a crença de que dávamos conta de prosseguir e suportar um pouco mais. Um terceiro tempo, então, se instalou, e com ele o baque de que é preciso resistir ainda mais, por um tempo incalculável. Por outro lado, hoje, temos em nossas mãos um sentimento de esperança, de uma experiência rica em superações diárias vividas coletivamente. Todas essas etapas têm sido acompanhadas por partilhas de afetos e é isso que nos faz prosseguir, suportar melhor e atravessar com esperança esse tempo sombrio", relata Cristina.

Márcia Mansur Saadallah, que também é psicóloga e professora da PUC Minas, acredita ser importante reconhecermos que o momento é difícil, mas fazendo um contraponto e descobrindo novas possibilidades dentro dele. "A Psicologia fala que a angústia tem dois caminhos em nossa vida: ela pode nos paralisar, nos deprimir, nos imobilizar, mas também pode ser um motor para buscarmos potencialidades que a gente não conhecia", explica.

Mesmo às vezes sendo quase impossível engatar esse motor, manter o foco no presente e nas tarefas essenciais pode ser a chave. "Um excelente exercício que faço é o de vencer dia a dia, viver o presente e me ocupar dos desafios de dar conta de administrar tantas variáveis. Nesse sentido, fazer planos para períodos muito próximos ajuda a organizar a rotina, os pensamentos e os sentimentos. E os quereres ganham contornos mais reais, porque separamos o que realmente importa do que é acessório para a existência humana", afirma a professora Cristina.

A professora Márcia Mansur concorda e diz que devemos nos prender ao sentimento de que isso vai passar, que a humanidade já viveu outras circunstâncias como essa e em como podemos tornar esse momento um pouco mais leve. "Não pensar o tempo todo sobre o tema, buscar outras leituras, outras diversões e descobrir novas formas de nos cuidar são algumas maneiras de darmos um gás durante esse período", comenta.

Para finalizar, um recado da professora Cristina: "Queria lembrar que toda crise sempre interrompe muita coisa, mas é também uma ocasião para se valer das brechas para se reposicionar, para fazer novos arranjos, para ser mais autêntico, mais aberto e respeitoso com o planeta Terra. E isso faz brotar em nós um lampejo de esperança".